AS LAVADEIRAS DO ARROIO
Stela Maris da Rosa Dias -professora municipal.
Nosso Município traz em sua história uma trajetória de caminhada ao longo do arroio que serviu de caminho aos pescadores que saiam da zona rural e vinham até a beira mar para pescar e coletar mariscos.
Nossos pioneiros, os primeiros moradores da Estância do Meio, nos idos da década de 40 e 50, aventuravam-se nessa caminhada até a beira mar, em busca de alimento para subsistência. Depois, com o passar dos anos, fez-se o veranismo e os turistas começaram a frequentar nossa praia.
Naturalmente houve a saída dos moradores da zona rural, margeada pelas águas doces da lagoa Itapeva em direção às águas salgadas. E assim se constituiu, por volta de 1953, o subdistrito de Arroio do Sal, pertencente ao Munícipio de Torres, sendo elevado então a município em 1988.
O mesmo caminho realizado pelos pioneiros moradores da Estância do Meio, ao longo do arroio, os trouxe da zona rural para a beira-mar, a fim de desfrutar então da nova economia que despontava com a ideia do veranismo: atrair turistas e veranistas para nossa praia, de extensa faixa litorânea, com uma beira mar cheia de dunas, mar aberto e bravio, convidando ao refresco dos dias quentes de verão!
Mas, sem planejamento urbanístico, foi-se retirando dunas, aterrando banhados, construindo casas, hotéis, e variado comércio. E as famílias saíram do meio rural e passaram a morar definitivamente na praia, pois o veraneio começava a despontar como recurso financeiro atrativo também aos moradores, para ampliar os ganhos financeiros.
Mas não tinha uma estrutura de planejamento que possibilitasse recursos para urbanização necessária, nem saneamento básico: não tinha água encanada e nem tratada, era utilizada água das cisternas, colhidas da chuva e de poços feitos no chão, refrescadas numa talha, mais tarde então foram criados poços artesianos. Não tinha energia elétrica, eram usadas velas, lampiões e pixiricas. Muito tempo depois, veio a criação da Usina com gerador a óleo, que levava luz elétrica às casas num determinado horário e se encerrava às dez horas da noite, quando seu Joca Dino ia até o galpão e desligava o gerador!
Não tinha tanque, nem máquina de lavar.
Aqui aparecem então as novas personagens dessa história do arroio histórico, que corta nossa Cidade de oeste ao leste, do mar até a Estrada do Mar! As mulheres-lavadeiras do arroio! Que foi tema do Desfile cívico municipal de Sete de Setembro, no ano de 2014.
Moradoras nas proximidades do arroio, diante da necessidade de lavar as roupas, as mulheres pegavam suas trouxas de roupas sujas (feitas com um lençol onde colocavam toda a roupa e amarravam as quatro pontas) as lavadeiras as levavam para lavar no arroio de águas limpas e claras, (que outrora serviu de caminho para a vinda das famílias para a faixa litorânea da praia).
Para essa prática usaram tábuas de madeira, que atravessavam na água do arroio, da beira do barranco até mais da metade adentrando o arroio, para então, de joelhos e encurvadas, lavaram, esfregarem, baterem e torcerem as roupas; muitas vezes deixavam corando (quarando na linguagem utilizada) na grama do barranco para clarearem, limparem as manchas mais pesadas; depois estendidas em varais ao longo da beira do arroio.
Enquanto nossas mães e avós, lavadeiras do arroio, lavavam suas roupas, nós, os filhos pequenos, ficávamos na volta e acabávamos sempre dentro do arroio nos dias quentes de verão, inclusive nas outras estações menos quentes. Fazíamos aquela festa, eram brincadeiras de mergulhar, passar por baixo das tábuas, bater corridas com os amigos! Tínhamos várias lavadeiras que também utilizam seus serviços de lavação de roupas aos hotéis e aos veranistas nas temporadas de veraneio.
Muitas agruras também aconteciam: nas enchentes e chuvaradas, as tábuas acabavam sendo deslocadas e iam parar na beira da praia. Após as enxurradas, as lavadeiras saiam à procura das suas tábuas na beira da praia, que lá paravam após serem carregadas. Até que um dos maridos de uma das lavadeiras, José Roque Nunes (marido da Dona Rosinha Nunes), teve a ideia de pregar um grampo e uma corda à tábua e amarrá-la no barranco, numa estaca de madeira.
Outros fatos também aconteciam de quando o mar estava cheio, as ondas entravam arroio adentro e de volta, levavam a roupa que estava sendo lavada, não raras vezes as lavadeiras precisavam recolher roupas de dentro d’água e até perderam roupas no arroio, que se iam direto para o mar.
Minha avó, Luiza Evaldt Dias, foi uma das pioneiras nesse ofício de lavadeira e algumas pioneiras de lavação das roupas no arroio: tia Cota Dias, a Dona Pequena (mãe da Lourdes Vargas), Martinha Elias (mãe do Tonho da Peixaria), Zefinha Valim (esposa do Joca Dino) e Anastácia Rodrigues (esposa do Pedro Mostardeiro)
Minha mãe, Iraci Maria Dias seguiu esse ritual, necessário para a lavação das roupas, pois não tinha outro modo de se fazer isso. Durante muitos anos realizou esse ofício de lavadeira, junto com as amigas próximas: Luísa Evaldt Dias, sua sogra, Rosinha Nunes, Edília Oliveira, Teresinha Anna Fernandes, Maria do Didi, Maria Klippel, Benta Balduíno, Rosa Pereira (que faleceu de um ataque cardíaco enquanto lavava roupas no arroio), Leontina Monteiro, Noemia Braga, Lícia Dal Pozzo, Teresa do Vando, Maria Amélia, professora, e a Dona Taça, mãe do Deoclécio Alves.
Além da lavação das roupas necessárias, era um encontro diário das lavadeiras que colocavam a conversa em dia, trocavam informações e até algumas fofocas!
Por longos 40 anos essa prática das lavadeiras aconteceu em nosso arroio, mas com o advento da Emancipação Municipal em 1988, por volta de 1992 não pode mais ser praticada, por imposição da Secretaria de Meio Ambiente, para preservação do arroio histórico da cidade, e a não poluição desse veículo-caminho das águas em excesso que deságua no mar.
Agora então é chegada a hora de mostrar a todos: moradores, alunos, pais e comunidade, essa tradição familiar e comunitária que permeou nossa história arroiossalense. É preciso que a conheçam e que possa ser preservada essa memória, parte da história local que foi elevada a patrimônio imaterial do nosso Município, em 2013.
Já foi criada, na Câmara de Vereadores, uma lei que institui o Dia da Lavadeira, em 18 de maio, (essa data é o aniversário da lavadeira Rosa Pereira) para homenagear essas guerreiras do arroio, que deram anos de suas vidas nessa atividade braçal, diária e cansativa de dar conta dos afazeres domésticos, com a lavação de roupas no arroio!
“O velho que preserva sua validade ou que encarna uma tradição ou marca uma presença no tempo continua novo. (Paulo Freire, 1996).”
Professora Stela Maris da Rosa Dias
Aula Digital Compartilhada
Escola Municipal Aracy Gomes Valim
Arroio do Sal, 01 de setembro de 2014.
Atualizado o texto em 01 de dezembro de 2024.
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